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Educação, comportamento, legislação: a experiência de uma profissional em trânsito no Brasil

A especialista em trânsito Roberta Torres esteve em Campo Grande no mês de setembro para palestrar aos instrutores e empresários dos CFCs de Mato Grosso do Sul. O curso promovido pelo Sindcfc-MS, teve o objetivo de capacitar e qualificar os profissionais do Estado a respeito do uso do simulador de direção veicular. Aproveitamos a sua passagem pela Capital para saber mais da sua carreira e opinião sobre os rumos do trânsito no Brasil.

Roberta é professora, Mestranda pela faculdade de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Pós-graduada em Gestão, Segurança e Educação no Trânsito pela Universidade Cândido Mendes (UCAM). É autora de livros sobre educação no trânsito, já foi Diretora de Educação da Federação Nacional das Autoescolas (FENEAUTO) e é empresária. Em 2012 fundou uma empresa de consultoria e atualmente viaja pelo Brasil capacitando e qualificando profissionais envolvidos na área do trânsito como: motoristas habilitados, motoristas de empresas, colaboradores e gestores de Centros de Formação de Condutores, instituições e órgãos públicos.

1 - Em qual momento da carreira você soube que queria trabalhar com trânsito, ensinar e palestrar?

A minha formação é em educação, eu fiz o antigo magistério depois a licenciatura em Educação Artística e sempre gostei de dar aula. Trabalhar com trânsito foi uma coincidência. Eu estava atuando como professora e perdi o emprego, então uma amiga que sabia que eu tinha acabado de fazer a carteira de motorista me indicou um Centro de Formação de Condutores de Belo Horizonte (cidade onde nasceu) que precisava de uma professora para legislação. Eu era muito nova e tinha pouca experiência, mas como eu estava com todo o conteúdo fresco na cabeça acabei aceitando o desafio. Isso foi em 2002. Comecei a dar as aulas, fui estudar e me aperfeiçoar sobre o assunto, então acabei me apaixonando pelo trânsito. Só depois de dois anos fui fazer uma formação específica numa das melhores instituições de ensino em Belo Horizonte. Vi a oportunidade para uma carreira nova já que poucas pessoas falavam sobre trânsito e descobri o gosto pela leitura e estudo. Foi assim que tudo começou. Depois vieram as palestras, as publicações, a FENEAUTO, etc.

2 - Na palestra você mostra algumas estatísticas envolvendo acidentes no trânsito aqui no Brasil. O que você gostaria de destacar?

Eu sempre dou o exemplo do número de acidentes divido por dias e horas que mostra que nós estamos perdendo uma pessoa a cada 10 minutos, em média, no trânsito. Eu acho que quando ficamos falando muito só em números e dados estatísticos a pessoa que ouve só enxerga os números e não percebe que são vidas. Eu percebo mais reação da pessoa quando falo da forma clara: ‘Uma pessoa morre a cada 10 minutos por causa de um acidente’. O impacto é maior, e vejo o quanto isso surpreende até mesmo quem já trabalha com o trânsito todos os dias. Muitos instrutores se assustam com essa estatística.

Infelizmente não temos uma cultura de segurança no trânsito, não aprendemos isso na escola, e os Centros de Formação de Condutores ficam muito focados em treinar o aluno no conteúdo programado. Eu gosto de chamar a atenção, mostrar dados reais e atualizados sobre as vidas que estamos perdendo por causa da imprudência e irresponsabilidade de muitos. Tento levar informação, estimular as pessoas na busca por ela.

3 – Com cada vez mais carros nas ruas, como você vê o trânsito no Brasil no futuro?

Complicado falar de mobilidade quando o que vemos é um governo investir tempo em achar alternativas para estimular a compra de carros, enquanto as políticas direcionadas para melhorar a mobilidade são muito pequenas. Na verdade, o governo ainda não assumiu - e quando eu falo em governo é o Municipal, Estadual e Federal- o trânsito como um problema. As ruas estão cheias, pessoas estão morrendo, gastos na saúde com atendimento de vítimas estão crescendo.

Mas, felizmente, bons exemplos existem e nós não precisamos reinventar a roda. Basta pegar as boas ideias de outros países e adaptá-las na nossa cultura e características. Vou dar como exemplo a Suécia, um dos países com menor índice de acidentes. Eles possuem um estudo aprofundado do que chamam de Visão Zero, que implica em responsabilizar para ter um trânsito seguro, ou seja, já começa pela reponsabilidade do governo (Municipal, Estadual e Federal) que precisa criar condições para que o trânsito seja seguro. Como? Investindo em tecnologia para as vias e projetando de forma correta. E existem equipamentos de última geração no mercado e a equipe de engenharia precisa dar conta disso. Por exemplo, se numa rotatória acontece um acidente porque o motorista estava em alta velocidade significa que a via está permitindo que isso aconteça. A via precisa ser projetada para ser segura o suficiente para evitar o maior número de acidentes. Claro que o motorista comete erros, mas a via também precisa ser bem pensada para coibir o motorista. Estou aqui falando de engenharia e fiscalização, mas existe a parte da educação onde o cidadão precisa aprender que a Lei deve ser respeitada, e que suas ações no trânsito terão consequências, boas ou ruins. Resumidamente, a Visão Zero estabelece que a responsabilidade é partilhada entre quem desenha as vias e quem as utiliza. E sempre que houver uma fatalidade algo tem de ser feito para que o fato não se repita.

E o transporte público? Com a qualidade do transporte público de hoje, como convencer o cidadão brasileiro a largar o carro em casa e pegar um ônibus para ir ao trabalho? Você vai dizer para a pessoa: - Saia do seu carro que tem ar-condicionado, conforto e que você sai e chega na hora certa, e use o transporte público que é o oposto disso. Ninguém quer trocar! O transporte coletivo e público no Brasil está melhorado em algumas cidades, mas se compararmos com o de outros países, os nossos estão bem aquém da qualidade necessária.

4-A capacitação dos instrutores aqui no Sindicato também teve prática no novo simulador de direção veicular que passa a ser obrigatório. Como você avalia essa nova ferramenta do processo de concessão da CNH?

É sim uma ferramenta que vai contribuir. Hoje, depois de conhecer bem o simulador e seus benefícios, faço uma avaliação positiva. As pessoas só precisam saber mais sobre ele. As avaliações iniciais realizadas em alguns Estados, e os meus experimentos feitos no meu Centro de Formação de Condutores, me mostraram que há um ganho na formação do condutor como um todo. O simulador não é uma ferramenta isolada, não é uma ferramenta que vai salvar o trânsito brasileiro, mas com certeza vai contribuir muito para a formação dos novos motoristas.

5- Você acredita que a educação é o melhor caminho para formar bons motoristas, ou no Brasil só Leis e multas pesadas funcionam?

A educação precisa ser trabalhada em conjunto com a fiscalização e engenharia eficiente. Não adianta só criar campanhas educativas para os meios de comunicação ou só trabalhar com ações nas escolas. É um conjunto de fatores que gera bons resultados. É preciso que o governo faça a sua parte e assuma a sua responsabilidade nesse processo, afinal do que adianta educação eficiente se a sinalização não existe, se o sinal está quebrado, se o asfalto é esburacado. Muitos acidentes são causados pela má qualidade das ruas. Costumo dizer que no Brasil falta diálogo, faltam pessoas no poder com capacitação técnica e falta de vontade política.

5-O Código de Trânsito Brasileiro atende as nossas reais necessidades?

O Código de Trânsito é um dos mais avançados do mundo, o problema é a interpretação dele. As pessoas têm muitas dúvidas e precisam entendê-lo mais claramente. Eu defendo muito a educação nesse ponto. Seria bom trabalhar o assunto dentro de todas as escolas, através de ações e debates, a juventude chegaria aos 18 anos para fazer a CNH sem dúvidas e muito mais consciente.

6-Em algum momento você sentiu preconceito por ser uma mulher trabalhando numa área já dominada pelos homens?

Muito, desde o princípio, não só por ser mulher, mas por ser muito jovem. Por exemplo, quando surgiu a obrigatoriedade do curso de direção defensiva para quem já tinha habilitação nós recebíamos na autoescola muitas pessoas que já tinham 30, 40 anos de direção, e elas não gostavam de me ver no comando, tanto os homens quanto as mulheres. Nunca fui ofendida, porém eu percebia algumas reações. Quando eu entrei na Federação Nacional das Autoescolas (FENEAUTO), para ser Diretora de Educação, eu era a única mulher trabalhando com todos os presidentes dos sindicatos dos Estados e também foi uma situação difícil, até conquistar o respeito deles. Hoje é bem mais tranquilo.

7- Você passou quatro dias conosco, o que você achou no nosso trabalho?

Eu fui conhecer a área de exames e fiquei impressionada, acho que vocês estão bem evoluídos e adiantados, principalmente unidos, o que é muito importante. Sem união ninguém chega a lugar algum e vocês estão de parabéns. Eu viajo muito e fico muito tempo longe da família, me senti acolhida por todos em Campo Grande. Parabéns também pela estrutura do Sindicato, isso demostra o bom trabalho que está sendo feito, de liderança, que é o que a classe precisa.

8- Gostaria de deixar um conselho para quem está fazendo a CNH, aos futuros motoristas?

Eu deixo a pergunta que eu sempre faço nas palestras: - E eu com isso? Nós precisamos parar de jogar a responsabilidade para o outro e assumir que cada um possui a sua. Para quem está passando pelo processo da carteira de motorista saiba que mesmo sem ela você já é responsável pela sua segurança e das pessoas que estão ao seu lado. Quando você estiver passando pelas aulas teóricas e de direção aprenda o máximo que puder. Não se corrompa no trânsito, seja honesto com você e a sociedade. E, quando estiver pronto para assumir a direção, pense nas pessoas que você ama.

Quem quiser saber mais sobre o trabalho da Roberta Torres basta acessar o site pessoal www.robertatorresl.com.

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